"Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada;
mas quando não desejo contar nada, faço poesia."
Manoel de Barros - Livro Sobre Nada

"O momento em que, hipoteticamente, você sente que está andando nu pela rua, expondo demais o coração, a alma e tudo o que existe lá dentro, mostrando demais de si mesmo. Esse é o momento em que, talvez, você esteja começando a acertar. "
Neil Gaiman - O Discurso "Faça Boa Arte"

"...eso es lo que siento yo en este instante fecundo..."
Violeta Parra - Volver a Los Diecisiete

terça-feira, 18 de abril de 2017

The Living City IX - Pessoas e pessoas


Ela é uma mendiga, como as centenas que existem nas ruas de Belo Horizonte.
Figura das mais repugnantes que já vi na vida: magérrima, cabelos loiros encaracolados e colados de suor ao crânio, dentes disformes e escassos, short sempre abaixo da linha do quadril, blusa de malha um número a menos do que seria normal, sem sapatos, muito suja, muita cola de sapateiro.
Raramente é vista fora do circuito Bahia, Augusto de Lima, Álvares Cabral, Espírito Santo e Guajajaras, onde, certa vez, quase me agrediu quando recusei-lhe uns trocados:

"-AAAAAHHH FELADAPUTA! É POR ISSO QUE JÁ MATEI CINCOOOO..."  ecoou sua voz rouca pelo cânion de prédios às dez da manhã.

A maior parte do tempo vive de cócoras, semi rasteja na calçada em frente à Igreja de Lourdes, à mercê da caridade e da indiferença de quem passa (alerta de mea culpa acionado).
E foi ali que tudo aconteceu:
Subia a pé, automático, pelo lado par da rua da Bahia, sol a pino, trânsito pesado, cabeça focada em algum compromisso genérico quando na altura do Colégio Imaculada a vi na posição de sempre, em frente à Igreja.
Imediatamente me transferi para o outro lado da rua para não ter que passar perto daquela figura.
Segui em frente e à medida em que chegava perto da Igreja vi uma senhora bastante idosa tentando, em vão, atravessar a rua que jorrava uma Itaipu inteira de carros, motos, ônibus e caminhões.
A mendiga estava agachada ao lado da senhora, debaixo de uma árvore magra e voltada para a igreja. De repente, do nada ela se levantou, cochichou algo no ouvido da idosa, a tomou pelo braço e, com gestos encantados, fez parar o trânsito e o mundo.
Atravessaram juntas para o outro lado da rua.
Voltou para sua árvore antes que os carros ousassem sair do lugar e não houve uma buzinada sequer.
Foi há quatro ou cinco anos atrás.
Lembro disso todo santo dia.

(acervo pessoal)

domingo, 19 de março de 2017

Há 21 anos: Roma.

Quando estive na Europa em 1996 escrevi um pequeno diário de viagem, contando os acontecimentos de cada um dos 40 dias que passei por lá.
Reproduzo abaixo o que aconteceu no dia 19 de março, sem retoques de texto ou de estilo, exatamente como se encontra na página da agenda.
O Victor mencionado no texto era meu colega de faculdade e tornou-se um grande amigo até os dias de hoje.

Terça-feira, 19 de março.

"Acordamos no horário habitual, um pouco mais tarde, quero dizer, e saímos do quarto às 10:00 hs, pois o Victor tinha seu tempo esgotado por lá. Passei para o quarto número 8, a 35000 liras. 
Bem, depois disso tudo, pegamos o metrô e fomos direto à Piazza San Pietro. 
Entramos na Basílica: impressionante! Imensa. 
Logo à direita, a Pietá, do Michelangelo! Protegida por vidro à prova de atentados. 
Um belo giro pela Basílica. E que giro! 
Em seguida fomos ao subsolo da nave, onde estão os sepulcros de vários Papas e de São Pedro. 
Ao sairmos, demos direto com a fila para subir à cúpula. Entramos: 5000 liras s/ elevador, e 6000 liras c/ elevador. Fomos de escada. 198 degraus até o grande terraço que é o teto da Basílica, depois, mais 330 degraus de todos os tipos até o lanternim. 
A vista lá de cima é qualquer coisa de ...... tudo! 
Acho que quem disse: “Ver Roma, depois morrer”, passou por aqui. 
Descemos novamente por escadas. Saímos dentro da nave, onde permanecemos por mais alguns minutos. 
Saímos e fomos comer algo. Meu dinheiro estava no final, e eu bastante preocupado por causa disto. Fomos depois em direção à entrada dos Museus do Vaticano e da Capela Sistina. O único dia que fecham é: 19 DE MARÇO. 
Depois desse desastre, só faltava chover. Não deu outra. 
Pegamos o metrô de volta a Termini e voltamos à pensão. Ficamos lá até o Victor resolver se mandar p/ a estação. 
Eu estava muito cansado. 
Às 20:30 + ou – estávamos novamente em Termini, onde repetimos a pizza do dia anterior, só que de outro sabor. 
Fomos à sala de espera e ficamos conversando. Um velho que estava sentado à nossa frente perguntou se éramos genoveses, por causa do nosso sotaque ( lembrei-me do carinha lá de Gênova, que nos disse que naquela região o dialeto era muito parecido com o português, e que se falássemos claramente, seríamos perfeitamente entendidos). 
Muito bem. Hora de ir. Fui com o Victor até o seu trem, desejei-lhe boa sorte e fui embora de volta à pensão. 
Logo que saí de Termini, no meio do 1o quarteirão, quase fui atingido por dois tiros!!! Bem, ouvi os cartuchos caindo atrás de mim. Os tiros saíram do alto do prédio de + ou – 5 andares que há no local. Voltei com muito medo para o hotel, pensão, sei lá... 
A noite não terminaria bem. 
Dormi muito mal e ainda por cima meu nariz sangrou."

(acervo pessoal)




quarta-feira, 8 de março de 2017

Mulher


A lembrança dela
chegou com o cheiro
da chuva, vindo com
a brisa que entrava
pela janela semiaberta.
O toque das gotas
no solo quente
o toque de seu beijo
e de sua pele.
O cheiro da terra molhada
o cheiro do perfume
e do suor.
Refresco da alma.

(acervo pessoal)

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

The Living City VIII-farewell


A balaustrada puída e rota da rua Sapucaí separa o plano do abismo.
Separa também o inimaginável do inexorável.
Ela prevalece sobre o caos lá embaixo, sobre os rios encaixotados, sobre o asfalto quente, sobre o diesel inalado à força e a selva de prédios grudados em conjunção quase carnal de suas empenas cegas.
Justo quando a cidade se aprontava para o mundo, os olhos verdes se fechavam para nunca mais.
O que era medo, virou fato.
Naquele voltar para casa mecânico e braçal, o choro chegou, tardio e doído por uma Floresta que se despovoava de suas maiores importâncias.
Até breve, Pai...

(acervo pessoal)



sábado, 15 de outubro de 2016

O gosto da palavra


Quando digo
frrruta!
sinto na boca
um gosto de pera.
Eu me alimento
de palavras...

(por Joana Lessa Campos)

(Em Ouro Preto. Acervo pessoal)



quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Ela


Ela tinha um quê de tristeza
e olhar de crepúsculo,
daqueles lindos que só
minha cidade consegue gerar...

Quando sorria era
alvorada pura.
Amanhecer
grama e orvalho
pisados sem medo
com os pés nus
e de mãos dadas
em silêncio e cumplicidade.

Carregava no coração o sentimento
de só viver um dia depois do outro...

(Por do sol, BH-arquivo pessoal)


terça-feira, 30 de agosto de 2016

Richter 9.0


Tectônico
o coração dispara
amolece a guarda
borra o desenho feito à mão
entorta a caligrafia do poema
e endireita o caminho para o sol.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Butterflies and Zebras


No estio da alma,
quando não se encontra tempo
nem para ser triste ou cultivar
o que de belo tem o blue
passa longe a poesia

ou quase...

nas grimpas de um bairro
na jam session inesperada
nas vozes roucas
no sorriso aberto de
quem passa ao largo e
ao alcance dos suspiros

no que há de cósmico
ou terreno
na conjunção de planetas
e de poetas
a poesia brota forte e
inesperada da palma
de minha testa

"Fly on little wing
Take anything you want from me"

#LittleWing


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Quase


Foi na manhã
ensolarada
daquele dia
em que mais
se procurava
que ele a encontrou
na lembrança
de seu colo
de seu cheiro
de seu toque
de seu nome
e na certeza
de que quase 
foram feitos 
um para o outro.


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Na crise


Existe?
Poesia na crise?
Não costuro palavras
nem construo pensamentos.
Ziguezagueio com os olhos
a balaustrada cinza do viaduto
de sempre...

Existe!
Existe sim,
mas o que quero mesmo é colo!
Tudo é cada vez mais fugaz
e a vida é um sopro.
Somos pó.

Tá osso! Todos dizem...
Tava osso! Digo eu...
Chegamos no cerne da questão.
Questão de tutano.
Quem tem mais,
chega ao dia seguinte.

Chego aos 45 do 1º tempo
Navego longe, mesmo sem vento...
E fulaninha?
Linda como sempre: S2 pra ela...

Existe poesia na crise?
Existe?
Quem não vê, corre...
Quem não crê, morre...

E ciclana? Melhor nem lembrar.
O que passou, foi-se...
mas se ela quisesse, eu ia.
Ninguém é 100% resolvido.
Pilha errada e neuras
movem o mundo...

Perdi a hora hoje cedo.
Peguei táxi.
Almocei pouco.
Falei com a filha e vi que
saudade só dói quando respiro.

Existe poesia na crise?
Não costuro palavra
com pensamento.
Duplipenso...

Bora trabalhar...













segunda-feira, 27 de junho de 2016

Far away, so close


Para deixá-la de vez
no passado longínquo
afastou-se.

Voltou (se) para o interior
pensando que assim
a vida seria tranquila.

Largou na capital
todos os beijos e
demais lembranças boas.
Deletou o que havia
de mensagens, "likes"
e referências.

Parou de respirá-la mas
no final do sexto dia:
"Damn...!"
Sonhou com ela novamente.

Há coisas que o coração
não deixa que apaguem.
Saudade é uma.
Amor,
nem se fala.

(acervo pessoal)

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Inverno


Hoje,
quando o inverno chegou,
a lua cheia era alta e branca
num céu de vidro sem nuvens.

O ar frio de junho por aqui
sempre tem cheiro de
amor recém descoberto,
de expectativa
e de abraços infinitos.

Isso é registro de minha memória pulmonar.

As faces coradas pelo fogo das fogueiras
e pelos corações em chamas.
Frio na barriga,
na ponta do nariz
e nos dedos descobertos
para o carinho inevitável.

Frio
até chegar o primeiro beijo.


(20-6-16: acervo pessoal)



sexta-feira, 10 de junho de 2016

The Living City VII


Sentia um incômodo, um desconforto diferente naquela via emocional que conectava coração e cérebro. O meio desse caminho era, não por acaso da natureza, a garganta, que naquela hora parecia tampada por uma bola de basquete suja de terra.
Ainda assim ouvia com interesse as palavras do professor sobre a cidade e seus primórdios e logo que acabou a aula saiu voando da Cidade Jardim com destino à Floresta.
Coisas de BH...
Flutuou calmo pela São Paulo com o Leitão encaixotado, ruidoso e fedorento lá debaixo do asfalto preto, imerso que estava em pensamentos e especulações inúteis.
Tentava desvencilhar-se dos preconceitos de praxe, principalmente os auto-infringidos, que atormentavam sua vida e o faziam pensar novamente em voltar para a terapia.
Acordou do transe entrando pelo viaduto de sempre. Conhecia aquelas calçadas como sua própria alma e as percorria cumprimentando buraco por buraco.
Ignorou os arcos dessa vez.
Não quis olhar para eles para não invocar mais passado.
Não tinha tempo para isso.
Precisava de caminhos novos, amores novos, sapatos novos.
Virou Sapucaí e sumiu na noite escura.


terça-feira, 7 de junho de 2016

E la nave va...


Vida que segue
Vida que anda
Vida que flui.

Tive um sonho essa noite
Em que dizia para alguém
Pelo whatsapp:
"O acaso é, na verdade, apenas
uma formalidade necessária,
quase uma burocracia da vida
para que os destinos se cumpram."

Vida engraçada
Vida que surpreende.

E la nave va...






quarta-feira, 1 de junho de 2016

De surpresa


Ela chegou  de surpresa
como chuva forte e trovoadas
em pleno mês de junho
na cidade que me vê crescer.

Trouxe vento,
trouxe frio,
aroma de terra e asfalto
molhados.

Foi-se embora e deixou
céu limpo
sol brilhante
atmosfera lavada
alma aquecida
e a minha grama mais verde
que a do vizinho.