"Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada;
mas quando não desejo contar nada, faço poesia."
Manoel de Barros - Livro Sobre Nada
"O momento em que, hipoteticamente, você sente que está andando nu pela rua, expondo demais o coração, a alma e tudo o que existe lá dentro, mostrando demais de si mesmo. Esse é o momento em que, talvez, você esteja começando a acertar. "
Neil Gaiman - O Discurso "Faça Boa Arte"
"...eso es lo que siento yo en este instante fecundo..."
Violeta Parra - Volver a Los Diecisiete
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
domingo, 24 de janeiro de 2016
Sonho, razão e emoção.
A semana tinha sido difícil. Enfrentou problemas inevitáveis que, se não existissem, deixariam a sensação de que a vida não era para ser vivida.
Nas horas de respiro seguia namorando as fotos dela. Nos olhos grandes, no sorriso aberto, na alma fluindo pelas poses e expressões congeladas, queria e conseguia enxergar paz e leveza. Mesmo sem conhecer o tom de sua voz alimentava expectativas e as matava com suspiros logo em seguida, experiente que era nos assuntos sentimentais.
O sábado chegou nublado e feroz. Foi metade trabalho, metade descanso.
No fim da tarde deitou exausto e dormiu. Num sonho rápido sentiu um incômodo seguido de dor dois dedos abaixo do mamilo esquerdo. Ainda em sonho levantou-se e despiu-se da blusa de malha branca para entender o que acontecia.
Viu que alguma coisa forçava o espaço por entre suas costelas espetando a pele de dentro para fora. Ergueu a cabeça, olhou para os lados procurando alguém que pudesse lhe explicar aquilo e também para buscar o fôlego que já ameaçava faltar.
Um pequeno corte abriu-se no local da dor e lá de dentro saltaram dois brincos de ouro com pedra facetada bem vermelha na ponta de cada um deles. Pareciam duas pequenas rosas lançadas para a luz diretamente de seu coração.
A dor no entanto continuava. Pelo mesmo corte brotou uma ponta metálica, de aço, que logo se revelou uma grande agulha curva, semelhante àquelas de costurar tecidos grossos. Tinha quase um palmo de circunferência e brilhava muito. Olhou novamente em volta.
O corte fechou-se em questão de segundos e deixou uma cicatriz. Houve um grande alívio pelo fim daquilo, pela dor que já não sentia e também por algum motivo que não sabia bem explicar.
Quando foi mostrar os objetos para o irmão que passava por perto, o sonho acabou.
Acordou confuso, com sensações de desprendimento e liberdade. Buscou em seu passado recente uma explicação racional para o sonho mas entendeu que ela viria de um tempo não tão próximo. Sorriu então com muita vontade de ser feliz.
Tratou de armar-se com todos os suspiros que seus pulmões pudessem emitir para alimentar todas as expectativas que nascessem dali para frente. Decidiu que elas deveriam morrer por si próprias e de velhice preferencialmente.
Sorriu aliviado mais uma vez e saiu para uma uma vida nova em que todo esforço valeria a pena.
sábado, 16 de janeiro de 2016
Im-poesia
Poesia que reside
onde passa longe
qualquer poesia
é o furo na sola de meu sapato
registro de meu errar constante
pela urbe
são as goteiras em profusão
pelo teto de meu quarto
meus livros e papéis molhados
é o silêncio que faço diinteiro
em meditação pesada: correções
de pensamento e de conduta
é o beijo na boca nunca dado
é o cafuné que não houve
é o sonho não perseguido
é o grande Amor desperdiçado.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
31 de dezembro
Na tarde deserta
na Praça deserta
eu e ela
desenhamos nossas vidas
lemos nossos momentâneos livros.
Silêncio de feriado:
ouvimos a flor do
bouganville se desprender do talo
e chocar-se contra o chão.
Ouvimos os beijos do casal
in love do outro lado
da fonte desligada.
Solitário um rapaz
observa tudo do alto
da escadaria do coreto.
Tudo está mudo na cidade:
máquinas, carros, ônibus e prédios.
Tudo está mudo,
menos o que nos interessa ouvir.
Menos os nossos corações.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
2015
Ouve, amor:
houve amor!
Ano de reencontros
e encontros.
De novo soprou o vento
trazendo o perfume da vida
tirando o conforto da prateleira
derrubando no chão frutos
já amadurecidos e reciclados
agora em novas árvores.
Apesar da lama, dos tiros,
da canalhice geral também
houve muita poesia e boa música.
Do sangue, do suor e das lágrimas
salvou-se cada gota derramada:
as lágrimas viraram risos,
sangue e suor viraram estrada.
O caminho está feito.
Ano que vem tem mais.
domingo, 27 de dezembro de 2015
The Living City III
Almoço de Natal em Santê e família grande à mesa.
A chuva chegara forte espantando o calor e a todos com o estrondo das gotas grossas e brancas como leite caindo sobre as telhas metálicas que cobriam o lugar.
Quem era criança chorou.
Quem era adulto se calou.
O barulho era tamanho que as pessoas não ouviam nem os próprios pensamentos.
Ele, com os olhos semicerrados mirava o nada e ouvia a voz da mulher que amava ecoando novamente em seu peito. Enquanto isso tentava amassar a tampa da cerveja com uma das mãos apenas.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
#recíproco
se te acalma o coração saber que existo
saiba que o meu se acalma em saber
que um dia nós dois existimos
e que foi bom.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
E o Amor faz 10 anos
"Papai! Esse ano terei um aniversário de dois números pela primeira vez! Estou tão feliz!!!!!"
Pois é filha. Dois números. Eu também estou muito feliz.
Dez anos desde que você chegou, naquela correria, numa véspera de Natal turbulenta de um ano atípico em que Deus me tirava coisas e pessoas com uma das mãos e devolvia belezas sem fim com a outra.
A nossa primeira ceia de Natal com você no mundo foi no quarto da maternidade, eu e sua mãe somente, você lá no quarto andar, lutando. O cardápio: duas maçãs, duas bananas, dois pãezinhos. Dois de cada...
É a ceia de Natal mais rica e farta de significados que já tive. Diante dela todas as outras se tornaram insossas.
Você ainda ficou por lá mais 2 meses. Dois.
Fomos vivendo outros Natais, outros aniversários, até que chegaram mudanças. Éramos três e agora, alternadamente, somos dois de cada vez, em duas cidades diferentes. Duas casas diferentes.
Vejo você crescer de longe, nas suas conversas e opiniões, nas fotos que recebo, nas coisas que sua mãe me diz do seu dia a dia.
Vejo você crescer de perto quando nos encontramos, através de suas dúvidas e anseios cada vez mais intrincados e principalmente através de suas mãozinhas cada vez maiores dentro das minhas a cada um de nossos passeios intermináveis pelo mundo.
Duas maneiras de ver você crescendo...
Filha, tenha certeza de uma coisa: você sempre terá nós dois, eu e sua mãe, na sua vida. Sempre. Você é o foco de nossas atenções e por você corremos tanto.
Parabéns pelo seu aniversário! Muito obrigado por todo esse tempo conosco, nos ensinando a ser melhores a cada dia, superando nossos medos e angústias em nome de sua segurança e felicidade. Que Deus lhe abençoe sempre e que mantenha essa felicidade constante que irradia de dentro de você.
Eu te amo!
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| Nós dois. |
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
Transformação
Cala a boca e solta a voz
que vem de dentro da alma.
Solta os bichos,
as amarras,
esquece o passado.
Solta rindo aquele "eu te amo"
quase soletrado,
sincero ou ornamental.
Espalha na mesa seus desejos
de beijo, de nuca,
do velcro absurdo das partes
e dos pensamentos escondidos.
Cala a boca e dê
as respostas rápidas
a quem as procura
mesmo sem perguntar.
Apenas responda rápido.
A vida não espera.
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Ato e efeito
Aquilo tudo durava horas:
a conversa das bocas
a fala dos olhos
o sussurrar dos corações.
Conversavam sobre o mundo
e se entendiam.
Falavam sobre eles próprios
e quase se entendiam.
Sussurravam seu amor
e não se ouviam.
No final concluiram-se
mudos,
cegos,
surdos.
E mortos.
(Ataíde Miranda: O Amor Tem Fases em P&B
nanquim sobre canson A3 )
sábado, 5 de dezembro de 2015
The Living City II
Saiu às pressas de São José onde fora agradecer algumas coisas e pedir outras. Apesar do sol ainda alto, o vento aumentava e trazia o som de trovões que espoucavam ao longe.
Atravessou Afonso Pena, viu a chuva despencando e derretendo as nuvens sobre a Serra. Calculou que em menos de cinco minutos tudo ali estaria molhado.
Alcançou Espírito Santo ensurdecido pelo tráfego e pelo repicar dos sinos da Matriz que parecia chamar o mundo inteiro para a missa das sete. O vento forte entrou junto com ele pelo canyon de prédios e, ao dobrar a esquina e passar pelo Acaiaca fez o índio da fachada assoviar alto, anunciando a tempestade.
Correu.
Desaguou em Amazonas ainda seco da chuva mas molhado de suor.
Pensava cegamente no encontro que teria mais tarde.
Precisava dos beijos e da pele daquela mulher tanto quanto precisava dessas letras e dessas linhas que sempre a traziam para perto nos momentos de distância infinita.
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| (acervo pessoal) |
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
Menina Veneno
Ela tinha a urgência e a impaciência
típicas de crianças agitadas em
véspera de Natal.
Caminhava chorando pelas ruas
qual menina imaginária e interior
lado a lado com um pai também imaginário
levando-a pelas mãos para a escola
quando preferia mil vezes ter ficado
em casa brincando em frente à TV
ou atirando coisas pela janela.
Seus olhares despertavam medo
em uns e em outros, admiração.
Era, no entanto, a paz encarnada
e infinita quando parava para respirar
entre o palavrão dito com a alma e
a risada aberta e branca que estourava
em seguida.
Parava 5 segundos.
Contemplava.
Lindificava tudo em volta dela.
Fazia tremer corações alheios.
Vasculhava olhando para cima
as janelas dos prédios acesas
na noite avançada enquanto
matava sem querer as baratas
e outras coisas nojentinhas
que insistiam em cruzar seu caminho
naquelas ruas míticas e carregadas
de passado.
Chegou até ali recusando reinos e cortiços.
Ria dos deslizes e tropicões dos outros
até perder o fôlego e a compostura
mas sem nunca perder a força,
a razão e a consciência de aprender
sempre com seus próprios tombos.
Sabia muito de si e estava
feliz com isso.
Se amava, afinal.
Amava o fruto de seu ventre
como o dia que sempre clareava
renovando tudo, inclusive
o medo e a coragem que guiavam
seus passos mais que decididos.
Era preciso passar por tudo aquilo.
Passará.
De nariz erguido.
"...um abajour cor de carne...
um lençol azul..."
sábado, 28 de novembro de 2015
Avenida Amazonas
Com os pés calejados e
cheios de bolhas.
ando com vontade
e à vontade pelo centro
da cidade.
Encaro de frente seus sujeitos
escolho seus predicados
ouço bem os substantivos
e enxergo em cores fortes
os seus adjetivos.
Miro e dobro suas esquinas agudas
e também as simplesmente retas.
Subo suas ladeiras e cruzo aos pulos
as sarjetas imundas, afluentes de seus
vários rios hoje encaixotados.
Penso muito nos beijos dela e
tudo ajuda a dissipar as dores
e as perdas que vem das
escolhas que faço.
Escolhas que me tiram a paz
me balançam e me reconstroem.
Diariamente.
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| (Acervo pessoal) |
sábado, 21 de novembro de 2015
Sufoco
Tenho um poema para ela
Entalado na minha garganta
Com palavras bloqueadas
Por pudor
Por razão
E por respeito.
Tenho um poema para ela
Entalado na minha garganta
Com palavras calculadas
Sem pudor
Sem razão
E sem respeito.
Eu tenho um poema
Entalado na garganta.
Sai! poema...
Melhor não.
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Sexta-feira, 13 de novembro
Abro a janela para que o som da chuva pesada dessa noite quente abafe o som de meu peito que late insanamente pensando em corações que não me pertencem.
Estão distantes e inacessíveis.
Penso somente em mim e também estou inacessível.
O rio Doce já não corre mais. Morreu afogado em si mesmo ao invés de fugir para o mar como sempre fizera.
Paris nunca me emocionou. Minha filha, hoje pela manhã, disse que seu sonho é morar lá para estudar desenho e que quando for me levará junto.
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| (Joana Lessa Campos-12/05/2011) |
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