"Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada;
mas quando não desejo contar nada, faço poesia."
Manoel de Barros - Livro Sobre Nada

"O momento em que, hipoteticamente, você sente que está andando nu pela rua, expondo demais o coração, a alma e tudo o que existe lá dentro, mostrando demais de si mesmo. Esse é o momento em que, talvez, você esteja começando a acertar. "
Neil Gaiman - O Discurso "Faça Boa Arte"

"...eso es lo que siento yo en este instante fecundo..."
Violeta Parra - Volver a Los Diecisiete

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Sobre o que deixamos para trás (ou para frente).


"Papai, porque existem pessoas marrons e pessoas não marrons?"
    (Joana, aos 4 anos)

    Me peguei pensando nos últimos dias sobre o que deixamos de mensagem para as pessoas que nos cercam e, inevitavelmente, sobre o que deixaremos para trás quando partirmos deste mundo.
    No início me assustei: seria preocupação excessiva com a minha imagem perante os "outros"? Insegurança? A "idade" chegando? Pode até ser, mas este pensamento é fruto maior das reflexões de um pai sobre qual é a maneira mais adequada de se educar e instruir sua filha.
    Concluí que não há fórmula ou receita exata para isto.
    Nossa história, nossas relações familiares e amizades, nossa relação com o mundo e com o ambiente que nos cerca nos ensinam muito e o tempo todo, sem que, necessariamente, percebamos o quanto estamos aprendendo.
    Por conta dessa reflexão e ativando minha mania de vasculhar as lembranças e o passado, visitei pessoas com as quais convivi e que se foram, ora por conta da vida, ora por conta da morte. Percebi que carrego um pouco delas em tudo que sou e em tudo que faço. Isso vale também para aquelas pessoas presentes no dia a dia, pois conforme disse, não há regras a seguir.
    O tio Maurício, marido da tia Tita por exemplo: me viu fazendo palavras cruzadas quando tinha uns onze ou doze anos de idade. Eu usava letras de forma e ele deu a seguinte sugestão: ô Alex, faz o "D" desta maneira, senão ele fica parecendo um "O" ( pegou na minha mão e foi refazendo a letra).  Foi tão significativo, tão paternal, que até hoje eu me lembro dele sempre que faço um "D" com letra de forma. Ele está vivo em mim, diariamente, quase 20 anos depois de ter morrido.
    O outro tio Maurício, irmão de minha mãe, arquiteto com o qual trabalhei por 14 anos e que se foi há 8: são inúmeros os momentos em que o trago de volta durante o meu dia de trabalho. Não é raro pensar comigo mesmo: ô magrelo, inverte essa planta aqui e coisa e tal... como ele me dizia no escritório. Hoje em dia, quando vou pedir uma coisa para a minha filha ou chamá-la para ver algo, sempre solto um "ô magrela..."
    Ainda com a minha filha, sempre que preciso ser mais enérgico para chamar-lhe a atenção, o faço como meu pai fazia quando eu era criança: do nada me percebo estático, com a mesma expressão séria com a qual me olhava, e, se bobear, dizendo as mesmas palavras. Só não tenho os mesmos olhos verdes que ele tem... Falei isso hoje na hora do almoço e ele achou muita graça.
    Não perco a oportunidade de dizer às pessoas o que representam para mim, o quanto me ensinaram e ensinam e em que momento isso ocorreu. É gratificante para ambos.
    Ficaria horas a fio lembrando de fatos, situações e de muitas outras pessoas com as quais convivo ou convivi e que ajudaram a formar o que sou: parentes, amigos reais e virtuais, namoradas, professores, colegas de trabalho e, para não ser injusto e esquecer de alguém, paro por aqui.
    Hoje a Joana está com quase 8 anos e gosta das mesmas músicas que eu, quer ser arquiteta como eu, gosta de ser a goleira no futebol da escola e até torce (fanaticamente) pelo mesmo time. São coisas que podem mudar com os anos, mas o que importa é frisar o quanto uma criança nos observa e nos copia.
    Daí a reflexão.
    Daí as lembranças.
    Finalizando, percebo que somos uma colcha de retalhos, um mosaico, uma rapsódia composta pelo que colhemos da vida. Somos também aquilo que semeamos. Saber alinhavar todas as críticas e informações, juntar todas as lembranças boas e ruins e passá-las à frente de maneira responsável é a nossa mensagem, nossa música, nossa obra levando em conta o velho clichê:  "viver é uma arte."

P.S.: respondi à Joana dizendo que Deus fez as pessoas da mesma maneira como fez o restante da natureza. Que se ela observasse bem, veria árvores altas, baixas, umas mais tortas, outras mais retinhas, com folhas gordas, outras com folhas fininhas. Que se olhasse para os canteiros da Praça da Liberdade (estávamos lá na hora da pergunta), veria cada um com um tipo de flor e que todas elas combinadas, árvores e flores diferentes, formavam um conjunto bonito. Como seria sem graça se todas as árvores fossem iguais, pois as florestas não teriam surpresas. Como seria sem graça se os jardins tivessem flores de uma só cor, pois logo iríamos nos cansar de olhar para elas. Imagina então se as pessoas tivessem a mesma cara, mesma cor, os mesmos cabelos, a mesmas vozes...
Se a resposta teve efeito eu ainda não sei mas que teve "ajuda" de muita gente, isso teve...










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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Va Pensiero


     Não!
     Definitivamente: não!
     Não posso andar mais que dez minutos sem que a partir do segundo seguinte destrave-se minha máquina de pensar e ativem-se minhas conexões metafísicas.
     Todas. Em cadeia.
     Eu caminho de casa para o trabalho quase todos os dias exatos quarenta minutos quando então o estrago é feito. São dez minutos de paisagem e trinta no desvairio. Nesse meio tempo, penso em tudo que preciso: projeto, telefonema, texto e poema, onde vou almoçar, qual lado das ruas tem mais sombra, o que vai ser ou não vai ser no resto do dia, fim de semana, Natal, reveillon, vida toda e puf! Parece que ando em círculos.
      Já disse certa vez que que cansei-me de tentar ver poesia em tudo, que cansei-me de tentar tirar leite de todas as pedras do caminho, que cansei-me de tentar ver lirismo nessa viagem em mar revolto que é a vida.
     Cansei-me definitivamente de tentar ser Drummond ou Camões ou de pelo menos tentar dialogar com eles.
     Ontem, em particular, rompeu-se essa regra  e meu caminho foi diferente: tudo fluía, tudo soava bem, quase não havia carro, quase não havia moto nem coletivo. Era só eu, deslizando cidade afora no percurso Anchieta-Centro, fácil, fácil, como fazem os jogadores e a "bola" naquele esporte (um trem maluco) chamado "curling".
     Pensava o quanto havia parado de pautar minha vida e atitudes olhando para trás, para o que passou e para o que não realizei por conta e culpa absoluta de minhas mazelas pessoais. Pensava o quanto o passado nos atrai e nos segura.
     Para minha surpresa, pensava em quando meu pescoço perdera a capacidade de girar 180º...pensava que as coisas estavam começando a mudar.
     O caminho que antes era pesado ficou leve.
     O percurso que antes parecia ser todo feito como se fosse a travessia à pé de um rio ficou fácil.
     Bastou pavimentar minha estrada diária com a "softness" necessária para que tudo fluísse melhor.
     Bastou parar de olhar para baixo, para meus próprios pés (e umbigo) e passasse a olhar mais adiante, olhar para frente.
     Bastou parar de contar meus passos com meros e frios números e substituí-los pelas sílabas de orações ou de pensamentos edificantes. Para o bem do meu dia. Para o bem do meu futuro.
     Não sou mais escravo da nostalgia sem limites.
     A viagem no entanto, continua.
     Os desvairios também.
     Viagem com calmaria e pronto!
     Descubro a América e reinvento a roda todos os dias.
     Umas mil vezes.

     *Va Pensiero (Vai, pensamento) é o título do 3º ato da ópera Nabucco, de Giuseppe Verdi e é a música preferida de minha mãe. Retrata o conto nostálgico de escravos hebreus no exílio, às margens do rio Eufrates, na Babilônia.. Abaixo,  uma interpretação de Va Pensiero pelo Coro da Metropolitan Opera House de Nova York em 2002.




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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Todo Ouvidos


E a minha palavra anda solta,
Erra por aí,
Tem o céu da boca
Como limite.

Ainda assim eu falo:
seja por este nó em minha garganta;
seja por este meu olhar (para o) vazio;
seja por este meu corpo que anda ligeiro;
     e o corpo fala alto
seja por este meu pensamento a mil;
     de queixo empinado e dedo em riste
seja por minhas mãos frias, trêmulas e postas,
     nariz pro chão
     em oração.

Eu falo e penso e escuto.

Eu falo mais do que quero.
Eu penso mais do que posso.
Eu escuto mais do que devo.

Aliás,
Eu sou todo ouvidos.













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terça-feira, 17 de setembro de 2013

Ata-me!


Foca-me.
Toca-me.
Inspira-me.
Suspira-me.

Ata-me!
 
Assopra-me
Nos ouvidos
Vida
Quando estivermos
Nós
A sós
De ventres colados
Corações laçados
E olhares vidrados
Variados.

Ata-me depressa!

Porque a tua ausência
É também a minha ausência
E a tua urgência
É também a minha urgência
Em que tudo se renove,
Em que tudo quanto é parco
E miúdo cesse,
Enquanto nesse canto
Me agiganto,
Em saudade e
Pranto.

Saudade
De quem mal conheço
Mas em quem, há muito,
Me reconheço.












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domingo, 15 de setembro de 2013

Leaving August: A Casa dos Contos e Eu. E os Madredeus...



     Boa parte dos fins de semana de minha infância e adolescência foi passada na chácara de minha avó na Pampulha, onde a família inteira se reunia em uma época de aparente tranquilidade que deixou infinitas boas lembranças.
     Como éramos muitos, às vezes ocorria de a meninada não caber nos quartos e alguns de nós íamos de mala e cuia dormir na sala imensa, adornada com todas aquelas coisas típicas das casas das avós: móveis e objetos antigos de fazenda, louças coloridas a perder de vista, oratório barroco, fotos de santos, etc. Em meio a tudo isso, o que eu gostava mesmo era dos quadros de Ouro Preto, encomendados por minha avó ao pintor Wilson Vicente na primeira metade dos anos 70 justamente para compor a casa recém construída.
     Eram 3 grandes: Matriz de Nossa Senhora da Conceição; muros e portão de trás da Igreja de S. Francisco de Assis com N. Senhora das Mercês e Pico do Itacolomi ao fundo e uma vista da Casa dos Contos com S. Francisco de Paula lá no alto. Um pequeno: mostrava a chegada à Praça Tiradentes, com a Capela da Escola de Minas em primeiro plano e o Itacolomi ao longe. Havia outros também, de Santa Luzia, cidade natal da vovó, e uma foto grande de São João del Rey, terra do meu avô.
     Das vezes em que era escalado para dormir na sala, costumava observar essas pinturas até adormecer e sempre me prendia a atenção o quadro da Casa dos Contos, talvez pela imponência da construção, talvez pela luz da tarde representada com maestria pelo artista ou talvez pela figura solitária de um homem passando pela porta lateral do prédio.
     Quem era ele? O que estaria fazendo ali? Ia bater e chamar alguém? Estava só de passagem? E por que ali só tem aquela porta naquela construção tão gigante? O que mais intriga é que me pergunto tudo isso até hoje sempre que vejo o quadro.

Casa da Pampulha: eu e alguns primos na sala. Pintura Casa dos Contos (arquivo pessoal).
     Quando ouvia de minha mãe que aquela era a "Casa dos Contos de Ouro Preto", a minha  cabeça  de criança disparava tentando imaginar quais foram os "contos" que aquele local gerou para merecer tal denominação e o que aquele homem tinha a ver com tudo.
     Minha avó morreu em 1988 e pouco tempo depois a casa foi vendida. Tudo que havia nela foi repartido entre os herdeiros: minhas tias, meu tio e minha mãe. A maioria das coisas, inclusive os quadros, foram para a casa da tia Lanza em Rio Acima, menos um: a Casa dos Contos foi dada a mim como presente. Foi o meu quinhão na herança, um pedaço da minha infância e a lembrança da vovó Lôla que ficaria para sempre comigo. Estava com 17 anos.
     Pouco tempo depois passei no vestibular de arquitetura e finalmente conheci a casa que tanto me marcara. Descobri que os "contos" que ela representava não eram exatamente os que eu imaginava quando criança. Volto lá toda vez que visito Ouro Preto e faço sempre questão de tentar adivinhar o local exato em que o pintor se instalou para realizar a obra.
     Corte na linha do tempo: no começo de agosto deste ano fiquei sabendo que haveria um grande evento musical na cidade e que um dos meus grupos musicais preferidos - Os Madredeus, de Portugal - iria tocar gratuitamente na Igreja de S. Francisco de Assis no dia 30. A ansiedade explodiu e vinte dias antes do concerto eu já estava com a programação pronta na cabeça para aquela sexta-feira especial e recheada de outros compromissos importantes. Qualé! Os Madredeus eram muito mais importantes que todos e, além do mais, queria levar a Joana para seu primeiro show ao vivo com artistas famosos.
     Mas como eu conseguiria os ingressos e onde eles seriam distribuídos?
     Eis que a vida começa a botar as cartas na mesa: os ingressos teriam que ser retirados 2 horas antes da apresentação. Onde? Na Casa dos Contos!
     Pensava comigo: Putz...tá pra mim! Olha só a combinação: Madredeus (música de toda a vida), Igreja de São Francisco de Assis (monumento mundial de arquitetura) e Casa dos Contos (lembranças e lembranças...). Tinha que ir de qualquer jeito!
     Chegado o tão aguardado dia, duas horas antes de começar a distribuição das entradas já havia muita gente esperando na fila que começava na porta lateral, na bendita porta lateral da Casa dos Contos que tanto provocou meus pensamentos na infância!
     Seriam apenas 150 ingressos à disposição, nos informaram os organizadores do evento. Limitações impostas pelo Instituto de Patrimônio Histórico por conta da obra de arte em nível interplanetário que é S. Francisco de Assis não permitiam mais do que isto. Não importava. Na triagem o nosso número era 139, ou seja: estávamos dentro! Certeza absoluta! Uhu!
     A fila começou a andar, e a vida a colocar mais cartas na mesa. A porta bendita ia se aproximando e minha cabeça era só o quadro na casa da Pampulha, e era a figura solitária na porta, e era minha avó no sítio. Era muito filme passando na minha mente de uma só vez e um quase delírio de emoção que foi interrompido subitamente com a seguinte fala:  
     "ACABARAM-SE OS INGRESSOS! AGRADECEMOS A PACIÊNCIA DE TODOS E OS CONVIDAMOS PARA OS OUTROS EVENTOS QUE ACONTECEM SIMULTANEAMENTE NA CIDADE..." 
     Como assim acabaram-se os ingressos? Éramos o número 139 e havia 150 para distribuir!
     Diante de mim apenas a porta lateral da Casa dos Contos de Ouro Preto. Fechando-se. Atrás de mim "trocentas" pessoas se lamentando ou reclamando do número pequeno de entradas...
     E eu ali parado, incrédulo, com minha filha no colo, tentando balbuciar alguma coisa, pedir algum ingresso extra, rezando pra São Francisco, Santo Antônio, Chico Rei, São Longuinho, para qualquer um que pudesse me conceder a graça de não perder a viagem.
     Não teve jeito. Jantamos ali por perto e minha esposa e minha filha foram para o hotel fugindo do frio, enquanto eu segui sozinho para São Francisco à espera de algum milagre, que obviamente  não aconteceu.
     Acabei assistindo ao show de pé, através do telão montado do lado de fora da igreja, junto com aquelas "trocentas" pessoas.

Madredeus: S.Francisco externa e interna (Flickr MIMO). Externa 2 (arquivo pessoal).
     O cenário: à minha esquerda, São Francisco de Assis, por uma hora e pouco transformada em caixa de Pandora ou caverna de Platão, com os Madredeus lá dentro numa apresentação divina e impecável; à minha direita, o cemitério da igreja, me fazendo lembrar da única certeza que temos na vida. Acima, uma noite impoluta, com Escorpião descendo e Sagitário no zênite, ou seja: com o centro da galáxia exatamente sobre as nossas cabeças. Algo místico que aliviou um pouco a decepção por não ter conseguido entrar e de não ter chegado pelo menos 15 minutos mais cedo naquela fila.
     Se tivesse conseguido os ingressos, certamente viveria uma das maiores experiências da minha vida, mas ali, do lado de fora, com aquele cenário, ouvindo aquela música, debaixo daquele céu e refletindo sobre todos os acontecimentos que me levaram até aquele momento, acabei definitivamente me encontrando e descobrindo a identidade do homem solitário, para sempre congelado e a partir de agora incrédulo diante da porta lateral da Casa dos Contos de Ouro Preto.

Casa do Contos - ângulo impossível - A.W.C.Jr.

Link relacionado: http://alexandre-pontodefuga.blogspot.com.br/2013/08/os-madredeus-e-ouro-preto-e-eu.html

P.S. 1: No sábado passado, dia 20 de junho de 2020, recebi de presente 3 dos quadros que mencionei acima. Quem fez essa surpresa foi minha prima Mariângela, filha da tia Lanza. 
Fiquei extremamente emocionado com a generosidade dela, que repetiu a mãe em outra passagem da minha vida, que merece um post futuro. Eis os quadros:



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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Dor Bendita

(às almas irmãs)

O teu silêncio me maltrata.
A tua distância me agonia.
A tua essência me arrebata.
A tua existência me alumia.

O teu falar? É um mistério.
O teu sorrir? É sem igual.
O teu calar? É impropério.
O meu fugir? É anormal.

Aonde andas que não te vejo?
Não te procuro pra não te ver.
Tateio o escuro e me protejo
Da dor bendita que é te querer.















 (Imagem: http://drawasamaniac.com/2012/12/brilliant-works-by-pavel-guzenko.html)

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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ciranda


Passa passa
Passa
Tempo
Tempo que
Não passa
Fica.

Quem fica em
Não passa bem
E passa tudo
Que passa bem.

Passa noite
Passa dia
Passa pranto
E problema
Gira o mundo
Roda viva
Vai pessoa
Vem poema...


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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Instantâneo Amor


Funciona assim
Na minha cabeça:
Te vejo
Te beijo
E vivemos.
Para todo o sempre
Amém!

O Beijo - Gustav Klimt - 1908 (detalhe)












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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Quarenta e Dois


Lá fora venta
Frio e Forte
Há pelo menos
Quatro horas.

O prédio resiste bem
Às rajadas.
Sequer balança.

As janelas,
Estas sim batem e sopram
Esquadrias em percussão,
Uivam por todas as frestas:

São meus olhos.
São meus ouvidos.
É o mundo inteiro
Vindo bater em minha porta.
Procissão de sentimentos
Coisas e
Gente.

Primeiro lugar na fila e
Primeira a bater: a Felicidade.
É ela também quem encerra tudo.

No meio estão:
Família
Gratidão
Amor
Esperança
Humildade
Carinho
Caridade
Paz
Saúde
Alegria
Harmonia

E todas as pessoas
Que nunca deveriam morrer um dia...

Lá fora o vento,
Sempre presente
Sempre mudando:
Ora jogando poeira
Em meus olhos
Ora trazendo alívio
Para o calor das idéias
Ora ventando somente
Agitando folhas
Desenhando com som
Uma árvore frondosa
De frutos maduros.










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domingo, 11 de agosto de 2013

Os Madredeus e Ouro Preto. E eu.




     E não é que terei a chance de ver os Madredeus ao vivo?
     E em Ouro Preto.
     E em São Francisco de Assis!
     Uma jóia da música, numa jóia de cidade, numa jóia do barroco das Américas.
     Eles vem para o MIMO, festival internacional de música, realizado em cidades que preservam bens e valores históricos do Brasil. Neste ano as apresentações serão também em Olinda (PE), Paraty (RJ). (http://www.mimo.art.br/festival)
     Música boa tem o poder de me curar de qualquer coisa, seja física ou emocional, e os Madredeus são simplesmente parte da trilha sonora de minha vida. Junto com os noruegueses do A-ha e os Kings of Convenience, com os meus queridíssimos Gershwins e Cole Porter, além do indefectível movimento Clube da Esquina, são peça chave do acervo sonoro que eu certamente salvaria de um naufrágio e levaria para uma ilha deserta, mesmo sabendo que não os escutaria nunca mais por lá não ter player nem energia elétrica.
     Pois é, quando escuto essa turma me transporto automaticamente para a ilha deserta mais próxima...
     Uma quase tatoo auditiva.
     Os Madredeus tem projeção mundial. O seu trabalho combina elementos da música portuguesa tradicional com a popular contemporânea e, na sua mais recente formação, algum flerte com a música erudita.
     Falando em formação, a vocalista mudou. Saiu  Teresa Salgueiro que era praticamente a personificação do grupo e entrou  Beatriz Nunes, egressa do canto lírico e com uma responsabilidade enorme pela frente: repetir todo o repertório consagrado por sua antecessora com novo estilo, com nova graça, com nova energia. Pelo que tenho visto e escutado, tem dado certo.
     Da formação original, de 1985 só restou o fundador, Pedro Ayres de Magalhães com sua guitarra clássica, responsável pela maioria das composições e arranjos. Na minha modesta opinião de fã, um grande músico e poeta de mão cheia. (http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,festival-mimo-traz-grupo-madredeus-ao-brasil,1057211,0.htm)
     Vamos lá então, singrar o "mar de morros" lutar pelas entradas e tentar encaixar esta apresentação entre as minhas responsabilidades habituais do dia 30 de agosto, plena sexta-feira e o sábado, 31, também dia de agenda cheia.
     Abaixo, trecho de concerto da nova formação dos Madredeus em Basel (Suíça), com "A Estrada da Montanha", canção recente e "Vem", do álbum O Espírito da Paz, de 1994.



Ver também: http://alexandre-pontodefuga.blogspot.com.br/2013/09/leaving-august-casa-dos-contos-e-eu-e.html


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Os Olhos Negros de Carolina


Olhos que buscam
Olhos negros
E vivos

Olhos que buscam
Olhos negros
Que passam

Olhos que buscam
Olhos negros
E fixos

Em outro olhar
Em outro pensamento
Em outro momento
Ou dimensão

Olhos que buscam
Meus
Olhos que buscam

Os olhos
Que não me veem

Olhos que
Vazios
Me buscam

Conteúdo
Cor
Ação

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domingo, 4 de agosto de 2013

Leaving July


Prefácio do mês de meus anos
Julho ficou para trás
E quase não orei.
No máximo lembrei-me
Do Cordeiro de passagem.
Com suas devidas
Consequências...

Nada tenho a dizer
A não ser
Que quando abri
Minha boca e falei,
Errei.
Que quando fechei
Minha boca e calei,
Venci.
Que quando abri
Meus olhos e enxerguei,
Nasci.

Fim de Julho de 2013.
Dizer o que?
(Viva o Galo!) 
No máximo, sorte no jogo.
Com suas devidas (e sabidas)
Consequências.

Foto: Estado de Minas.



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segunda-feira, 22 de julho de 2013

O Telhado


Chuva.
Telhado.
Goteiras.
Baldes.
Chão molhado.
Piso estragado.

Chuva passa.
Conserto o chão.
Tempo passa.

Chuva.
Telhado.
Goteiras.
Baldes.
Chão molhado.
Piso estragado.

Chuva passa.

Preciso consertar
O telhado.


Telhados em Buenos Aires-dez.2012-A.W.C.Jr.







quinta-feira, 18 de julho de 2013

Árvore no Caminho de Itabira


Árvore no caminho de Itabira.
Tal qual a pedra no caminho do poeta
Faz-me pensar e a mente gira
À medida em que o carro singra a reta.

Não sei se fica antes ou depois
Da Brejaúba, fazenda maior de Minas,
Sei que fica lá, sem par nem dois,
Assentada na encosta das colinas.

É como toda árvore deveria ser:
Altiva, frondosa, imperial,
Não sou como deveria ser:
Falta saber o principal.

2004
















domingo, 14 de julho de 2013

Leaving June (p.u.n.k.)


Eu me canso às vezes
De tentar ver poesia
Na rotina
Na adversidade
No corriqueiro
Na aridez
No revés.

Isso mascara
A realidade da vida.
A mente vicia e pode se tornar
Anarquista,
Altamente treinada em eterna negação:
"Se hay gobierno, soy contra!"

Quando tudo está mal
Enxerga o belo, traz
Alívio paliativo.
Passageiro.
Não combate o verdadeiro problema.

Quando tudo está bem
Enxerga o pior, traz
Dúvida e desconfiança.
Não acredita em si.
Não dá solidez ao momento.

Na rotina
Na adversidade
No corriqueiro
Na aridez
No revés
Não posso mais enxergar beleza.
Não tenho mais tempo.

Tenho que fazer disto
Estrada
Escada
Caminho
Para ser feliz.

Eu vejo o mundo à minha frente
Com todos esses caminhos.

Todos os dias.

 



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