"Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada;
mas quando não desejo contar nada, faço poesia."
Manoel de Barros - Livro Sobre Nada
"O momento em que, hipoteticamente, você sente que está andando nu pela rua, expondo demais o coração, a alma e tudo o que existe lá dentro, mostrando demais de si mesmo. Esse é o momento em que, talvez, você esteja começando a acertar. "
Neil Gaiman - O Discurso "Faça Boa Arte"
"...eso es lo que siento yo en este instante fecundo..."
Violeta Parra - Volver a Los Diecisiete
domingo, 8 de março de 2015
Depois da Chuva
À noite
Sobre as poças rasas
Deixadas pela chuva
Que acabara de cair
Ele caminhava só,
43, mais adolescente
Do que nunca
Levando flores nas mãos
E na alma.
Nos ombros o peso
De um luar intenso
De prata pura
Derretendo aos poucos
Nuvens de chumbo
E medo.
Coração?
Repleto de tudo.
De vida, inclusive.
Deixou ao pé da entrada
O buquê
Deslizou com os olhos
Por baixo da porta
O cartão
Com tudo o que nunca disse
E com tudo que estava por dizer
E querer
Dali pra frente.
Sentiu ali sua presença
Pelo simples fato
De saber que ela existia,
Mais do que pelas luzes
Vindas das janelas
Pelo vento assoviando
Pelas frestas
Ou pelo trote miúdo do "pet"
Que já notara o movimento
E farejava o chão
Do outro lado daquela
Bendita porta.
Saiu andando sem olhar pra trás,
Consciente de ter feito
O que pedia a voz
Do seu coração.
.
terça-feira, 3 de março de 2015
Devaneio
Ela deixou tocar a mão
Em seus cabelos negros
E cada fio que passava
Por meus dedos
Parecia forte e pesado
Como se fosse de aço
Porém deslizava
Solto e leve
Como aquele momento
Ia se tornando.
Eu sentia um por um.
Cada fio uma nota musical
Um acorde numa sinfonia
Que nunca deve acabar
Uma batida do cuore mio
E um desejo intenso
Por seu beijo.
Cada fio uma certeza
De que vale a pena
Viver um dia após o outro
Cada momento
Cada sentimento
E cada amor.
.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Decidébeis
O som de um jato
Em voo rasante
Às onze da noite
Sobre o telhado de casa
E o som de sua imagem
Quando fecho os olhos
Ao lembrar de seu
Sorriso
Som
Iguais
.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
O Pensamento Orbital
Girava como um planeta
Solto no espaço só que
Preso à Estrela que ela
Se tornou
Desde que ali chegara.
Os olhos gravitavam
Em torno de sua presença
De sua existência
Na urbe e
Na sala que habitavam.
E então as órbitas
Se cruzaram
Colidiram olhares em
Explosão cósmica
Big Bang
E ao
som de mil
Corações disparados.
Andou atrapalhado
Em volta da moça
Sem saber o que falar
Sem saber o que pensar
A não ser a melhor maneira
De sentir o seu perfume
Ou tocá-la
O coração.
Caiu a ficha.
Notou que fugira da vida
A vida inteira
Assim como o diabo
Foge da cruz
Andara em círculos
Parábolas e elipses
Voando tonto
Como um inseto voa
Em torno da luz.
.
sábado, 31 de janeiro de 2015
Herança
Giro com os dedos
Memórias
Assim como giro o gelo
No destilado on the rocks.
Bebo muito,
Mas aos poucos.
Me embriago
E durmo.
Sonho com o quinhão
De herança que recebi:
Um peixe Beta para alimentar,
Um mini-cacto para cultivar,
A face ainda úmida
Do beijo longo e filial.
A blusa amassada
Pelo aperto do abraço
Da despedida
(ou do até breve).
Alguns brinquedos
Centenas de desenhos
A visão do sono calmo e sereno
Muitas risadas
E declarações de amor.
Desperto feliz e triste,
Sem ver a hora de viajar.
Ansioso e resignado,
Com a mente tranquila
E o coração aberto
Para tocar a vida
E administrar
O latifúndio emocional
Que vou me tornando.
.
domingo, 11 de janeiro de 2015
Dez do Um
Sábado.
Sorvi em goles
Pausados e profundos
Toda a atmosfera
Em minha volta
Alimentando e digerindo
Acontecimentos.
Minha filha vai morar longe.
Meus pais estão velhos.
O resto da família toca suas vidas
Cada qual em seu compasso.
Tenho paixões dispersas
E amores a resolver.
Não sei a quem recorrer
Para o desabafo diário
Pois nem meu travesseiro
Aguenta mais a ladainha.
Estou só mergulhado
Em pensamentos tantos
Que as noites inexistem
E os dias são pequenos
Demais para abrigar
O tanto de vida que
Ainda imagino ter.
Ao mesmo tempo
Tenho medo de não ter
Mais assunto.
Nem para autocrítica.
Enquanto isto a vida
Segue e escoa.
Rápida e certeira
Como um tiro de fuzil.
.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Para Sempre Meu. E Seu.
A consciência súbita
De que tudo um dia acaba
E de que a vida é uma só
Me joga na cara
A lembrança que já lhe
Escrevi poemas e nunca
Os mostrei.
E você sempre linda
E sorridente naquelas fotos...
Na confortável, astronômica
Distância que fotos infringem
Às paixões não declaradas.
Quisera eu lhe falar
De amor
Com a mesma facilidade
E coragem com que
Lhe escrevo agora
Mais esse poema.
Para sempre meu.
E seu.
Publicado em 17-06-2016 no blog da Viviane C. Moreira: https://videcampos.wordpress.com/2016/06/17/amor-em-pedacos-versos-196/
.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Ora Pro Nobis
Todo santo dia oro para santos
Que não existem me protegerem.
Torço para que o Universo
Conspire a favor de coisas
Que não construo.
Durmo com medo do Bicho Papão
Puxar minha perna ou me aplicar
Um bullying espiritual qualquer.
Só que,
Quanto mais eu rezo
Mais assombração aparece...
Outro dia veio a Papuda
Lá dos altos do Palácio
E assustou a Joana...
E me encheu o saco!
Confiarei nossa proteção
Agora a um menino
Com nome de rei bíblico
E carinha de anjo da Turma da Mônica
E a outro, com nome de goleiro-herói
E rostinho risonho e despreocupado...
Para sempre meus queridos.
.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Lua! Meia Lua e Beiral
(retratos de um dia quase perfeito)
Amanheci conversas
Com a amiga de longe
Farol de saber e carinho
Alimento para a alma
E para o coração.
Dia de arte e exposição
De um Van Gogh
Mineiro e Inconfidente
Maestro e Inquieto
Mosqueteiro e Infernal
Infernal como um dia
Equatorial
De sol muito sol
De calor e fogo por todos os lados
De céu de azul grego mediterrâneo
E lua!
Meia lua
E beiral.
Dia de Minas
Pausa
. . .
Café com leite
Pão de queijo
E footing sem compromisso
Pelas redondezas da Praça.
Dia de voltar para casa
E sentir-se em casa
De construir mais um Olimpo
Com histórias contadas e cantadas
Levemente embriagadas
Quicando nas quinas e esquinas
De Minas
Até o anoitecer
Sob o pé de maracujá quase cheio
Da casa pátria Mãe gentil
Sob um céu de Van Gogh
Bracher
Bituca
e cia.
Assim anoitecia.
Há muito eu não era eu.
.
Amanheci conversas
Com a amiga de longe
Farol de saber e carinho
Alimento para a alma
E para o coração.
Dia de arte e exposição
De um Van Gogh
Mineiro e Inconfidente
Maestro e Inquieto
Mosqueteiro e Infernal
Infernal como um dia
Equatorial
De sol muito sol
De calor e fogo por todos os lados
De céu de azul grego mediterrâneo
E lua!
Meia lua
E beiral.
Dia de Minas
Pausa
. . .
Café com leite
Pão de queijo
E footing sem compromisso
Pelas redondezas da Praça.
Dia de voltar para casa
E sentir-se em casa
De construir mais um Olimpo
Com histórias contadas e cantadas
Levemente embriagadas
Quicando nas quinas e esquinas
De Minas
Até o anoitecer
Sob o pé de maracujá quase cheio
Da casa pátria Mãe gentil
Sob um céu de Van Gogh
Bracher
Bituca
e cia.
Assim anoitecia.
Há muito eu não era eu.
.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
2014: nota 10, com louvor!
Joaninha minha filha, chegamos ao final de 2014 um pouco ofegantes e descabelados pois afinal de contas foi um ano muito difícil para todos.
Nós nos separamos.
Estamos em casas diferentes. Coisas de adultos que nem eles conseguem explicar ou justificar direito mas que no fim das contas foi a solução mais razoável.
Fico triste por você ainda não ter um espaço só seu, uma casa só sua. Até mesmo seus brinquedos foram repartidos, ficando metade aí com você e a outra metade aqui em casa, no quarto ao lado, parados, em silêncio, encostados e no escuro, sem você para lhes dar vida.
Enfim...é o preço da decisão que eu e sua mãe tomamos.
Você minha linda, encarou todo esse processo, toda essa transformação com bravura e serenidade de dar inveja a qualquer adulto experiente, vivido e preparado.
Você é uma menina feliz e faz questão de dizer isto o tempo todo.
Grita aos quatro ventos que tem a melhor mãe e o melhor pai do mundo.
Foi muito bem na escola, apesar das tempestades...
Confesso que me assusta tamanha maturidade e compreensão numa criança de apenas 19 quilos...
É a minha magrela!
Esse ano pela primeira vez não passamos juntos o seu aniversário e o Natal. Normalmente ficaria triste e amargurado, mas seu comportamento, sua força e sua alegria me dizem tanto que senti como se estivesse ao seu lado.
Estamos vencendo etapas difíceis, nos adaptando a novas realidades, dando nossos pulos, tomando novas decisões. Fomos muito felizes entre tantos momentos complicados.
Sabe o que é isto filhota?
Isto é viver!
E viver com você torna a vida mais fácil e leve.
Obrigado minha linda. Muito obrigado!
Passamos 2014. Tiramos nota 10, com louvor!
Seremos felizes em 2015.
Eu acredito!
Um grande beijo do seu pai que te ama cada dia mais e mais.
.
domingo, 7 de dezembro de 2014
Excursion Into Philosophy
E quando a fé
Parece ir embora?
É por que somos incrédulos?
Não.
E quando a esperança
Não se basta nem a si?
É por que somos pessimistas demais?
Não.
E quando a força
Desaparece por completo?
É por que somos fracos?
Não.
E quando não há amor?
É por que somos indignos para amar?
Para receber amor?
Não.
É porque somos gente.
Temos direito a sentir tudo isso.
Temos também o direito e o dever
De saber que
Cedo ou tarde
Tudo passará,
Tudo voltará.
Tudo é cíclico.
![]() |
| (Edward Hopper: Excursion Into Philosophy - 1959) |
.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Eco
É dessa imensa
Cordilheira que nos separa
Que recebo notícias suas.
Quanto mais penso
Em você
Mais alto meu peito
Te chama.
E as notícias que chegam
Nada mais são que o eco
De meu chamado
Voltando do paredão
De montanhas
E de lembranças,
Sempre que insisto em
Pensar alto
O seu nome.
É essa a notícia.
Seu nome.
Só eco.
Só memória.
Só lembrança.
Só.
.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Brasília, para mim...
Conheci Brasília
Pelas asas de um anjo
Com pés de vento
Olhos de poeta
E coração de criança.
Brasília só existe porque houve sonho, vontade e coragem e essa foto é carregada de significados, sendo por isso, uma das mais importantes de minha vida.
Representa muitas coisas, a começar pelo encontro de três mineiros ansiosamente esperado por mim há anos: Juscelino Kubitschek (Diamantina, MG), aqui representado por escultura em pedra sabão de José Alves Pedrosa (Rio Acima, MG), um dos gigantes do modernismo brasileiro e eu, Alexandre, (Belo Horizonte, MG) em minha primeira visita à cidade.
Um encontro marcado por olhares mais que significativos: Juscelino olhando para além do infinito, certamente planejando seu próximo grande feito; meu olhar de encantamento e admiração pela escultura, pelo personagem que ela retrata e pela cidade que ele criou; o olhar por trás da câmera, que tão bem conduziu e registrou esse momento e essa viagem.
Na verdade, o meu olhar foi além do terreno, terrestre, terráqueo.
Foi olhar múltiplo, de presente, passado e futuro.
Foi olhar para a vida com perspectivas tão abertas quanto as que Brasília proporciona.
Foi olhar arquitetura e urbanismo como estrofes de um grande poema.
Foi olhar de reconhecimento para as pessoas que me construíram e de carinho e receptividade para as que me ajudam a ficar de pé.
Foi olhar de descoberta e recomeço, agora com mais sonho, vontade, coragem, audácia, energia e confiança.
Brasília é, para mim, pura poesia.
.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Braile
(por Denise Eler)
Este poema é um convite
Recite ao pé do ouvido
Daquele que te tem
Mas não te possui
Este poema é feito de confissões na escada
Ensaiadas
De declarações em guardanapos
Guardados
De beijos na boca
Perdidos no rosto
Este poema está na estrada
Pedindo carona
Correndo riscos
Passando frio
Só para chegar até você
Leia com as mãos
.
Este poema é um convite
Recite ao pé do ouvido
Daquele que te tem
Mas não te possui
Este poema é feito de confissões na escada
Ensaiadas
De declarações em guardanapos
Guardados
De beijos na boca
Perdidos no rosto
Este poema está na estrada
Pedindo carona
Correndo riscos
Passando frio
Só para chegar até você
Leia com as mãos
.
domingo, 7 de setembro de 2014
Atalho para o Cuore Mio
Você desponta novamente,
Longe,
No fim da reta de minhas
Lembranças mais que felizes.
O atalho que percorre
Para chegar ao cuore mio
É uma alameda de
Bouganvilles roxos em flor,
Cheia de pétalas
Suspiros e
Sorrisos,
Cobrindo e
Colorindo todo o chão.
.
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