"Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada;
mas quando não desejo contar nada, faço poesia."
Manoel de Barros - Livro Sobre Nada
"O momento em que, hipoteticamente, você sente que está andando nu pela rua, expondo demais o coração, a alma e tudo o que existe lá dentro, mostrando demais de si mesmo. Esse é o momento em que, talvez, você esteja começando a acertar. "
Neil Gaiman - O Discurso "Faça Boa Arte"
"...eso es lo que siento yo en este instante fecundo..."
Violeta Parra - Volver a Los Diecisiete
domingo, 17 de março de 2013
Barra Longa
Barra Longa
E pesada
De solidão latente,
Presente...
Cidade pequena
Coração pequeno...
A veia grossa
Na testa denuncia:
Algo não vai bem...
Vago as ruas
Desertas
Paralelas ao Gualaxo
Cheio de chuva.
Não há transversais,
Só uma única via
A escolher:
Se errar...
Errei
Erro
Ermo
Noitescura...
.
terça-feira, 12 de março de 2013
Procissão da Vida
Das flores
E dos amores,
Canto as dores
E ardores
Em milhões de cores
Odoresabores
De corações estertores
Carregando andores
Santos de barro
Levados
Na procissão
Da vida....................
.
terça-feira, 5 de março de 2013
Leaving February (shooting star)
Uma vida inteira
Acreditando e esperando
Que a solução para todas as coisas
Caísse do céu bem em cima
De meu colo
Assentado e
Descansado.
Fevereiro mostrou que
Nada cai do céu,
Que o milagre não vem
Do espaço.
Fevereiro mostrou que
Pedras sim, caem do céu.
Do céu da Rússia
Ou do céu da minha boca.
Fevereiro mostrou que
Não há brilho sem
Atrito.
Que o brilho do meteoro
Vem do atrito.
Que o brilho da prataria
Vem do atrito.
Que a lapidação dos brilhantes
É uma forma de atrito.
Fevereiro mostrou que
Depois do atrito
E do brilho,
Há deslocamento
Explosão shockwave
E rompimento.
E que rompimentos libertam.
Fevereiro mostrou que
Não se joga pedra em telhado alheio,
E que o meu é de vidro.
Fevereiro passou,
Estrela (de)cadente.
.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Aquelas Flores na Estrada (Catas Altas)
O que me lembra Catas Altas?
A igreja imensa,
Igual a mim por dentro:
Partes prontas
Semiprontas
Verdades nuas e cruas,
Às vezes aberta para o povo
Entrar e olhar, sem pagar...
A maior montanha do mundo,
Do tamanho dos medos todos
Que tenho.
Tão bela quanto os sonhos todos
Que tenho.
Tão grande quanto a força toda
Que quero ter...
A capela isolada na colina,
A gente brincando de posar
De profetas no adro:
Cena única na paisagem,
Assim como sou único
Com a paisagem...
Catas Altas, local do primeiro
Ouro das Gerais:
Foi lá que vi Raquel,
Foi lá que cantei de cor
Bem na fonte
As músicas do Clube do Lô
E finalmente as entendi...
Indo pra lá eu vi
Aquelas Flores na Estrada,
Todas as minhas flores,
Toda a minha estrada,
Tudo descoberta
Tudo primeira vez...
No calor do vinho
A consagração da amizade
E a sensação de sempre
Ter estado ali...
Maio 2004.
| Maio 2004 |
![]() |
| Maio 2005 |
![]() |
| Outubro 2008 |
.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Luna
Serena...
Serena...
Seu rosto
Lua plena
Luna llena
A iluminar
O peito
A duras penas
Palpitar.
Saltita
Crepita
Lá dentro
A chama da paixão
Ou talvez mais um
Senão
A me avisar
A me ensinar
O não.
Gira o mundo
Roda a vida
A esquina passa
A vista embaça
O ouvido apita
A voz não grita
O peito agita.
E fim.
.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Valha-me Deus
Valha-me Deus
Com graças
A alma que em
Mim habita
Todo susto
Que ela passa,
Cada vez
Que ela grita.
Valha-me Deus
Com graças
A alma que em
Mim habita.
Valha-me Deus
Com graças
A força que em
Mim suscita,
Toda vez que
A sorte é escassa,
Toda vez que
A vida agita.
Valha-me Deus
Com graças
A força que em
Mim suscita.
Valha-me Deus
Com forças
A graça
Que Ela suscita
Toda vida que
Ela passa,
Minha vida
Que Ela agita.
Valha-me Deus
Com forças
A graça
Que Ela suscita.
.
sábado, 26 de janeiro de 2013
Leaving January (forward)
De Belo já não sei
O que tenho
O que falo
O que faço.
Porque tudo agora tende ao funcional
E só se busca lucro e vantagem
E superficialidades.
O Horizonte já não sei
Onde está
Onde olhar
Onde vai parar.
Porque o voo agora é na vertical
E só vejo céu sol nuvem lua
E estrelas pela frente.
A ordem é não olhar para trás.
Não posso mais ter saudade
Da vida que descartei.
Não posso mais me valer
Daquilo que nunca tive.
Não posso mais me arrepender
Dos erros que não cometi.
De Belo (e) Horizonte ficam
O chão em que hoje piso
A terra em que nasci
A estrada que até agora percorri.
![]() |
| Edward Hopper, An excursion into philosophy, 1959. |
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
(In)Farto
Estou farto de saber
Quem sou
Mas as pessoas ao redor
Insistem em me lembrar.
Algumas com jeito,
Outras, sem jeito algum.
O fato é que estou farto
De me saber.
Me encontro sempre
E a toda hora
Nas torneiras que uso pela manhã,
Nas portas abertas maçanetas acionadas com cuidado,
No meu reflexo rosto inchado dentro do copo d'água
Ou num olho só reprisado por falta de espaço para o resto
Dentro do copinho de café.
Sou eu pelos caminhos de casa,
Seguindo com os olhos os rodapés
Ou a risca dos rejuntes do piso
Quartobanheirocozinhaquartosalarua...
Eu sou! a maneira como me apoio
Em uma das pernas
Lavando a louça
Esperando o ônibus
Ou mofando em fila qualquer...
Eu estou lá, sou eu!
Eu sei!
Sei quem sou em cada gesto
Fala atitude.
Desenhando escrevendo trabalhando
Pensando falando
Me dirigindo às pessoas
E as ouvindo
Dirigindo o carro ou minha vida.
E nisso tudo sou tão eu...
Queria me ver e me saber
Amando de novo
Pois da última vez
Quase não soube
Ou pouco me vi
Pois os espelhos não me suportaram,
As noites foram cegas
E os resultados obscuros.
Mesmo assim
Fui eu.
Me vejo aqui agora
(In)Farto do miocárdio
Matando tempo e pensamentos
Matando esperanças velhas
Criando esperanças novas,
Sendo tão eu
Quanto sempre fui.
Eu sou assim e pronto!

Primeiro desenho meu feito pela Joana. 2008 - "Eu sou assim."
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Os Ombros Suportam o Mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade
Os versos acima foram publicados originalmente no livro "Sentimento do Mundo",
Irmãos Pongetti - Rio de Janeiro, 1940. Foram extraídos do livro "Nova
Reunião", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1985, pág. 78.
Foto: http://leituradomundofantasticodebob.blogspot.com.br/2012/11/eu-etiqueta.html
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Leaving December (heal)
Levar a filha ao mundo
Cura e cicatrizes
Fizeram dezembro.
A cura que chega
Aos poucos:
A ave mítica do passado
Já não me come o fígado
Todos os dias.
Vem dia sim dia não.
Dia sim dois dias não.
Dois dias não dia sim.
Dia não.
Dia a dia.
Dialética...
E vai virando
Águ(i)a passada.
A quelóide que fica
É a garantia da lição de vida.
Joana veio e
Foi para o mundo
Em dezembro.
Rompeu fronteira.
Voou
Viu
Aprendeu
Falou
Traduziu
Sorriu
Respirou novos e
Bons Ares.
Nada mais importa agora
A não ser continuar a caminhar
E progredir.
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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Vai! Oscar...
Vai!
Vai buscar
Outro olhar,
Outros espaços,
Outras perpectivas.
Vai lá!
Vai...
Vai buscar
Tocar
Ver de perto
A alvura das nuvens
O cristal do céu
Que sempre trouxe
À Terra em seus projetos
Vai lá!
Vai
Encontrar talvez
O Deus em que nunca
Acreditou
Mas que de você ganhou
A mais bela casa,
A mais bela oração.
VOILÁ!
Voa lá e vai
Buscar mais coisas para fazer
Novos Belos Horizontes,
Novas cidades,
Novos mundos.
Comprova
Que o universo é infinito,
Que somos m3rda
Diante dele
E que a vida é um sopro.
Vai.
Vai buscar
Inovar
Contestar e ser contestado.
Sempre...
Agora vai.
Vai projetar o Olimpo!
Vai lá Oscar!
Se ao Carlos,
Mandaram ser gauche na vida.
A você,
Mandaram ser ponto fora da curva.
Ironicamente...
.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Leaving November (autumn)
Novembro foi-se
Por um triz
Não foi junto meu pescoço
Muitos baldes quase voaram
Em pontapés e cabeçadas
Em quase gols de placa
Foi outono em primavera plena
Queda de flores e folhas
Lifelong believings
And belongings
Fertilizando e pavimentando
O chão que tenho pela frente
O quase mesmo chão do Bob Villela*
Novembro foi-se
E para mim foi
Conjunto de perdas
Das coisas que nunca tive
E ganhos das coisas
Que nunca perdi.
*(http://linhasminhas.wordpress.com/2012/11/23/funcoes/)
Desenho: Joana Lessa Campos 11/2012
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Carta Para Minha Filha
Joana,
se você não tivesse chegado ao mundo como chegou, prematura de seis meses na véspera do Natal de 2005, diria que hoje foi seu primeiro vestibular.
Naquela época foram quase sessenta dias de prova não só para você, mas para todos nós, indo e vindo diariamente ao hospital para te visitar e te dar forças, numa rotina angustiante casa-trabalho-UTI-casa-trabalho-UTI.
Foi quando sua mãe deu mostras de quanto é gigante e guerreira, assim como você.
Olhando para trás vejo que, apesar de ter enfrentado seu primeiro "vestibular" logo que chegou ao mundo, você foi a professora, e nós os alunos. Seu exemplo de garra e superação nos inspirará para sempre.
Hoje, 19/11/2012 você fez o seu primeiro teste de seleção para mudança de escola.
Foi aprovada para entrar numa escola concorrida!
Quando sua mãe me ligou para dar a notícia, fiquei muito orgulhoso, feliz e emocionado. Passei vários minutos no trabalho reprimindo suspiros e controlando os olhos marejados de lágrimas de felicidade. A vontade era de explodir, sair de lá correndo para te encontar e te cobrir de beijos!
Tenha certeza minha filha, que muitas outras provas e testes virão, sejam eles na vida de escola ou na escola da vida e de que estaremos sempre ao seu lado.
Por falar em vida, veja como ela é curiosa: ontem eu vi na internet uma foto feita por um colega de trabalho, o Remi Bouquet. A foto mostra uma joaninha caminhando em meio a um grande novelo de arames farpados. Imediatamente me lembrei de outra foto de joaninha, feita em Paris por outra colega de escritório, a Grazi Malaco. Desta vez a sua xará caminha sobre um mapa da Cidade-Luz...inacreditavelmente a sua cara!
O Alessandro Marques, também colega de escritório hoje estava jubilante com a filha dele que passou em vários vestibulares e muito bem colocada em todos. Estava num sorriso só. Parecia o Gato da Alice no País das Maravilhas...
Quando uma coisa-coincidência dessas acontece é sinal inequívoco da existência de uma força e poder superior e que chamamos de Deus. Isso não acontece à toa. Não é possível que seja mero acaso esses momentos terem se conjugado agora. Não foi por acaso também que nos encontramos...
Esse é o mundo minha filha.
Essa é a vida: não é fácil, é cheia de obstáculos, dificuldades, farpas, mudanças e muita luta.
É para ser vivida e vencida com fé, poesia e coragem, pois Paris está lá, nos esperando como recompensa!
Estamos todos muito contentes.
Te amo.
Papai.
.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Calmaria
Seria ela calmaria
Pr’um coração
Tão agitado?
Seria ela todavia,
Se estivesse
Apaixonado...
Desenho: Joana Lessa Campos
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Leaving October (behind)
Ontem, 29, ventou e choveu,
Mas não adiantou.
O calor ficou.
Ontem, 29, dormi e repousei,
E não adiantou.
Não sonhei.
Pelo menos não me lembro
Ter sonhado.
Hoje, 30, sigo a pé meu caminho
Povoado de lembranças antigas
E pensamentos inúteis retrógrados
Cheio de ruas e calçadas íntimas
Com essas lembranças e pensamentos.
Pisoteio solos sagrados,
Regados irrigados hoje, 30,
Com suor e lágrimas de
Emoção e saudades
Do que passou e nunca mais vai voltar.
Na multidão que cruza o meu caminho diário
Busco sempre o mesmo rosto sem o achar,
Mas quando isso acontece,
Reconheço mais a alma, menos o rosto
Que aparece com os olhos fechados selados,
Com a boca costurada lacrada
E os ouvidos, inexistentes,
Derretidos colados à cabeça.
Alguém que não me vê,
Não fala comigo
E não me ouve mais.
Sequer me reconhece.
Amanhã, 31, quero não estar triste.
A tristeza é uma droga.
Quero melhorar meu sonho,
Melhorar meu caminho,
Melhorar meu mundo.
Imagem: Aproaching a City - Edward Hopper (1946)
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